|
RENATO REZENDE
o lugar onde cada dizer se torna fundação
(originalmente publicado no
caderno Prosa e Verso, do Jornal O Globo, edição de 24/09/2007)
A explosão de
signos proposta pelo poeta Márcio-André em seu recente e inquietante
Intradoxos (Confraria do Vento, 2007) é melhor compreendida no contexto
de sua experiência da poesia como totalidade e da palavra como elemento
totalizador. Ao lado de Victor Paes e outros poetas universitários
cariocas, Márcio-André é editor da Confraria do Vento, que regularmente
publica uma excelente revista literária eletrônica do mesmo nome, e
membro-fundador do grupo Arranjos para Assobio, cujo projeto de
performances de poesia registradas em vídeo procura resgatar a relação
primordial e fundadora entre o cênico, a dança, o canto e a música.
Partidário dos esforços nos meios artísticos e acadêmicos contemporâneos
no sentido de trabalhar e produzir em redes interdisciplinares e apontar
para uma confluência de linguagens, o poeta, no entanto, entende tal
processo de totalização a partir de uma noção de sacralidade: o lugar
onde cada dizer se torna fundação.
Dialogando com vários poetas, pensadores, cientistas e artistas das
tradições do ocidente e do oriente (entre os mais recorrentes, Pound,
Lao-Tsé, Dante, mas também Rilke, Magritte, della Francesca, Cronenberg,
Einstein...) Intradoxos de certa maneira ambiciona fundir e superar
todos eles num novo reinício fundador. O livro, com capa invertida e
paginação da direita para a esquerda (como os livros árabes) começa com
o poema “A palavra”, de um único verso: “este não é um livro que termina
mas que começa”, e poeticamente procura fundar uma espécie de cosmogonia
da linguagem (ou ao menos ritualizar sua fundação). No poema “Cosmogonia
das palavras”, que abre a sessão “a máchina de dimensões / [cuântica das
palavras]”, por exemplo, se lê:
a beterraba
estala de beterraba
o gerânio lasca de pintarroxo
feixe
OX
[ókisss]
CRAFTWORK
fecundante a sacrovaca
010
o ídolo Zebu de bronze os chifres
contracurvos
seu olhos lacustre
...
Procurando afirmar a liberdade e a capacidade de alterar (de dançar) o
mundo próprias da palavra poética, Márcio-André deturpa a normatividade
ortográfica e gramatical do português, aleatória e plasticamente
substituindo algumas letras por outras (especialmente o “q” pelo “ch”),
criando neologismos e inserindo gráficos, diagramas, mapas, equações,
sinais ortográficos e ideogramas chineses no corpo dos poemas. Dessa
forma, um novo mundo (uma nova linguagem) é gerada e proposta. Para
Márcio-André, a palavra do poeta é fundadora, e o próprio poeta funciona
como uma espécie de alquimista ou xamã contemporâneo. “É preciso que as
palavras mudem de sentidos e o sentidos de palavras”, disse Godard, uma
das referências do poeta. Infiltrando-se pelas brechas da linguagem e
pelos espaços intermediários entre as artes – mas apontando sempre para
o mesmo espaço originário – Intradoxos é, nas palavras de Márcio-André,
um aprendizado pelo meio do entre.
Um dos aspectos mais intrigantes e estimulantes da poética de
Márcio-André é sua afirmação da máquina. O forte vínculo da mensagem de
Intradoxos com uma função sagrada e mágica do poeta e de sua palavra não
traz em seu bojo a necessariedade do orgânico, o que poderia ser lido
como uma espécie de retorno, mas, ao contrário, afirma a exatidão da
ciência (flertando principalmente com as novas descobertas da física,
especialmente a física quântica) e da tecnologia, como fica
principalmente evidente em poemas como “Música quântica”, “A máchina” e
“Intradoxos”. Para Márcio-André, o sagrado está intensamente presente em
qualquer criação humana, por mais alienada que esta esteja nas roldanas
que giram o sistema – um dos objetivos do grupo Arranjos para Assobio é
justamente tentar acionar a poesia com objetos cotidianos, com qualquer
maquinário. O que importa não é o que está por trás das coisas, mas
entre as coisas. Resgatando o lugar originário (e, portanto, atemporal)
da poesia, Intradoxos, ao mesmo tempo, afirma o nosso tempo, o século
21, indicando que não se chega ao sagrado por uma rememoração do
passado, mas pela radical afirmação do presente. Desta forma, como bem
nota Boaventura de Sousa Santos na orelha do livro, o experimentalismo
de Márcio-André “não é abstrato (ou seja, concretista)”, e sim “sua
maneira de interpelar uma tradição asfixiante e ao mesmo tempo vazia”.
Indo na contramão da aventura lógico-metafísica, mas sem negá-la,
Intradoxos pretende ser uma cosmogonia do presente.
Renato
Rezende é poeta, autor de Passeio (Record, 2001) e Ímpar (Lamparina,
2005).
|