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CINDA GONDA as formas do movimento
Uma poética em busca da totalidade, capaz de integrar todas as linguagens. Esse parece ter sido o desafio lançado por Márcio-André em seu livro Movimento Perpétuo. No título a associação música/tempo, a lembrança da música como tempo e a sua natural irreversibilidade. Não por acaso, no manifesto que abre o livro, a reflexão sobre o Nada Absoluto: “Não morrer jamais. É expressamente proibido morrer ou fazer pactos com a morte. Aproveitar o dia não por ser curto, mas eterno”. Num mundo marcado pelo excesso: da velocidade, da imagem, da informação, a obra irá incorporar, condensar, levar esse excesso ao paroxismo. Como resultado, uma espécie de explosão cósmica, em que partículas, estilhaços ou fragmentos se articulam, comunicam, nos devolvendo novos sentidos, ritmos, em um novo andamento, variações:
viver é ver um pedaço de mundo parte dos cem-mil olhos que o vêem pedaço de tempo dos cem-mil pés que o pisam pelo Odeon já passou gente que ria e andava de bonde
Trabalhado com rara habilidade e sensibilidade, cada poema é um universo a ser pesquisado e compreendido, com finais inesperados, recortados ora pela ironia, ora pela melancolia:
este farol durará mil anos e eu apenas esta noite
Som e silêncio, sinal e grafia aí convivem, por entre cordas de violino, pautas musicais, teclados de computador, metrônomos, haikais, alfabetos... E tudo se conjuga, se confunde, se prolonga, ganha forma, impacto visual, dimensão na página/tela, escrita/palavra – poema. Com a habilidade do afinador — o violino é uma de suas paixões — Márcio-André capta sons, investiga-lhes o peso, a densidade, decompõe palavras. É o que se observa em “movimento perpétuo: Lutheria”, a incidência das consoantes c/r a nos devolver o movimento/som do serrote cortando a madeira:
artesão da lasca eleva um rastro /mãos que contestam o estático/
certus cernitur in re incerta serragem pressupõe trabalho
síntese a sobra da madeira: música
A disposição das palavras na folha dão autonomia ao poema, dispostas em colunas, cada uma significa, violino e arco, tensionadas cordas. De forma dinâmica e experimental o poema fala ao poema num procedimento metalinguístico inesgotável:
e Deus fez o homem à sua imagem:
<p><img src=”file: ///C:/WINDOWS/amatéria.Desktop/serhumano.gif” width=”34” height=”30” alt=”serhumano.gif (891 bytes)”></p> </body>
A presença da “biblioteca”, das referências culturais do autor, o jogo intertextual percorrem a obra: filosofia, música, pintura ali convivem. Mas é no espaço dos afetos, abrigados na memória, como no poema “Movimento Perpétuo: vazios vãos”, dedicado à avó, que um certo tom nostálgico, intimista, comum aos adágios tem lugar:
e setenta anos de desencontros e cartas deixadas a ponta da pena
nem amor nem justiça são cegos só a saudade — indivisível forma de futuro e passado não esconde verdades nem desculpas
durante vasto em depois tão curto
Em sua Pequena Estética, Max Bense nos alerta para o caráter não acabado da estética, segundo ele “uma ciência aberta que deve continuar sempre completável, sujeita à revisão”, daí que seu campo semântico pertença ao princípio da pesquisa. É o que nos parece referir o último verso com que Márcio-André fecha seu percurso: “Se a vida não oferece muito que ”. Ali, ainda uma vez a noção de movimento. Convém não esquecer que a arte possui um caráter enigmático. Ao resolver um enigma, apenas acrescentamos um enigma a outro enigma. Márcio-André o sabe, tanto que
Rio, novembro de 2002.
Cinda Gonda é professora de Literatura Portuguesa da UFRJ
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