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GUILHERME ZARVOS comentário sobre o livro Intradoxos
Márcio-André inicia seu livro no subterrâneo humano – grita o nome! E o é! – o filho dos dentes; aos poucos a subversão, por sua virulência, a daquele que exclamou o nome, emerge e as próprias palavras questionam sua mitologia de imanência, enquanto uma desarrumação exige que elas se modifiquem: o signo questionado. As palavras, como personagens, não aceitam mais as normas: elas, maduramente escritas pelo poeta, querem outra ordem de composição.
A poesia que desenha o movimento perpétuo – Intradoxos – está, para as teorias acadêmicas atuais, num “entre-lugar”. Márcio-André e, como um dia, Gerardo Mello Mourão participam do jorro proporcionado por Ezra Pound. Márcio, como Gerardo, no País dos Mourões, conseguiu um livro para além de Pound. No sentido que tem uma autoria boa bela e posterior. O livro não mais remete, diretamente, ao, no caso de Márcio, seu antecessor por ele mesmo citado. Enquanto Gerardo deixa fluir a mitologia dos Mourões, o longo poema épico, Márcio deixa-se envolver pela experiência da explosão dos signos. A raiz etimológica como dentes. Pela originalidade e qualidade dos poemas, deve-se esquecer seus encaminhadores e deixar-se ao acalento desta leitura instigante.
Daí a criação epifânica misturada com a inteligência erudita e o aparecimento de línguas, existentes ou sonoras, os ideogramas e as folhas concretistas. O poema A Máchina é delicioso, como vários outros. Dentre muitíssimos livros de poesia que li coloco o Intradoxos como um livro surpreendente, onde Márcio-André exerce muito bem o poeta, o músico, o ensaísta, o designer, e até o geógrafo. É uma didática da liberdade. É imperdível.
Gostar dos processos do poeta ou seguir os passos do poeta. Sugiro, que no segundo caso, esqueça o poeta. Deixe que suas possibilidades ajam sem você saber que vem do Márcio-André. A “memória esponja” que o poeta Roberto Corrêa dos Santos bem fala. Aquela que pode desaparecer por tempos e voltar quando o desejo é urgente.
Ele já age em mim.
Ghilherme Zarvos é escritor, editor e produtor cultural, fundador do CEP20000.
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