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BOAVENTURA DE SOUSA
SANTOS sobre movimento perpétuo: intradoxos
Intradoxos é uma
poesia profundamente inovadora. Parte de um profundo conhecimento da
tradição/ortodoxia para se poder confrontar consigo mesma com uma
inocência inaugural própria de quem só chegou agora (tarde?) e apenas sabe
que está suficientemente dentro de si para poder iniciar a caminhada. É um
começo que não termina, e só começa quando se esquece de que é um
anacíclico ovo. Afinal, só o poeta tem o privilégio de circundar o
vazio de dentro para fora.
A poesia constrói-se dizendo o nada dos seus objectos, já que os
objectos são indivisíveis. O próprio poeta desaparece no que se
torna um outro de si: je est un autre (Rimbaud). Mas Márcio-André
não se conforma em desaparecer sem obrigar o objecto a expor-se, uma
exposição que é sempre uma explosão. É, pois, uma voz nova que vive
intensamente a violência da cultura, desde o gregos até aos nossos dias,
sempre na esperança de nada ser irreversível por nunca ter começado. Ou
ser eterno, o que é próprio da poesia. Por isso o funeral é um hino à
imortalidade.
A poesia de Márcio-André é uma luta permanente com a língua. O seu
experimentalismo não é abstracto (ou seja, concretista), é antes a sua
maneira de interpelar uma tradição asfixiante e ao mesmo tempo vazia. A
língua é também as formas da tradição. O poeta des-inventa-as, parodia-as,
mas sabe que elas o formam, tanto quanto o sonho nos sonha a nós. A partir
de a Máchina de dimensões, o poeta atinge a plenitude da sua
criação, isto é, define o lugar da sua sabedoria de poeta: serena e
aforismática no meio das ruínas da língua e dos grafismos. A poesia como
um day after redentor.
Este poeta explode dentro de nós com uma doçura indescritível. A sua
poesia é uma das mais notáveis da sua geração.
Boaventura de
Sousa Santos é sociólogo, poeta, diretor do Centro de Estudos Sociais da
Universidade de Coimbra e Distinguished Legal Scholar da Faculdade de
Direito da Universidade de Wisconsin-Madison .
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