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entrevista a Lisardo Lopes
(Para o Diretório Acadêmico Lima Barreto, da Faculdade de Letras da UERJ).

LISARDO: É
muito difícil divulgar um livro de forma independente? Como você vê a
recepção do publico a jovens escritores?
MÁRCIO-ANDRÉ: Eu acho verdadeiramente o seguinte: qualquer poeta que não
seja consagrado é independente, e os independentes são mais regra que
exceção. Sempre foi assim. Acho que nós somos de uma geração acostumada a
ídolos, bens culturais, ícones pops, atores de Hollywood, etc. nosso tempo
é do, ou você vende milhões de exemplares ou você não é ninguém. Mas isso
não se aplica à poesia. Na narrativa temos até os best sellers, mas não
existe best sellers poéticos. Todos os poetas famosos etc, são poetas
velhos. Manuel de Barros levou uma vida inteira até ser o Manuel de
Barros. Infelizmente, ou felizmente, na poesia não existe esta ânsia. Acho
que ninguém sonha em ser poeta para ganhar dinheiro, teria que ser muito
burro para pensar isso. Acho que a poesia é o lugar onde o sentido da
arte, que é um sentido da diferença, da singularidade, ainda permanece,
isto é: o sentido do caminhar, o compor, e não a busca de resultados. Um
sucesso futuro, é mais decorrência do acerto ou do erro de seu caminhar do
que da exigência de um mercado. Nem Ferreira Gullar vende tanto quanto se
espera que venda um poeta famoso. (pronto)
LISARDO:
E quanto aos mais novos?
MÁRCIO-ANDRÉ: Os novos, temos muitos e muitos. Cada um que está produzindo
é um poeta, mesmo que não seja publicado, ou não tenha um livro. Agora,
qual critério de seleção ou de qualidade se vai utilizar para selecionar
ou não é outra coisa. Foi disso que eu falei em relação a singularidade,
diferença. Todo obra é um diálogo. Não se dialoga com quem não interessa.
Não se ama obrigado ou o que não te toca. O problema é que só pensamos em
ícones. É preciso que uma grande quantidade de pessoas aceite aquilo para
que aquilo seja válido. Nossa maneira de pensar é sempre dentro da
tradição, mas não existe um certificado para poeta. O poeta se faz
fazendo. Tenho muitos amigos que escrevem há muitos anos e escrevem muito
bem e nunca lançaram um livro. Por falta de recursos, por descredito mesmo
nessa estrutura que espera que você saia arrebentando por uma grande
editora. Mas qual grande editora, grande mesmo, publica poetas, a Rocco? a
Record? Ou a Companhia das Letras? Nossas editoras de poesia são uma
piada. O que é a Sette Letras?
LISARDO:
É triste né?! Quem perde somos nós leitores(poucos, é verdade), que não
temos acesso. E os mais antigos?
MÁRCIO-ANDRÉ: Pra mim esse mercado editorial faz parte da mesma oligarquia
cultural que faz o Rio de Janeiro existir somente do túnel para lá. Quanto
a um poeta grande, eu cito o Gerardo Mello Mourão, que é muito conhecido,
aclamado no mundo inteiro, mas ainda assim é menos reconhecido do que
deveria. Mas a questão então é qualitativa. Não é uma poesia fácil, o que
o restringe num país de Jorge Vercilos e Bandas Eva. O problema dele é
outro. Ele teve todas as oportunidades possíveis. Ele transitou entre os
grandes intelectuais de nosso tempo, é pai de um artista plástico que
acabou de expor no Louvre. O problema dele é que não temos a tradição de
ler poesia que não esteja vinculada a MPB.
LISARDO:
Quando foi que você decidiu se tornar poeta? Ou se deu conta de que era
inevitável? Enfim, como foi se tornar poeta pra você?
MÁRCIO-ANDRÉ: Olha, eu não escolhi a poesia, foi a poesia que me escolheu.
Desde moleque minha vida é regida pela arte. Eu não nasci numa família
letrada, então não podemos atribuir isso à uma mera estatística
sócio-econômica. Não consigo conceber minha existência longe da obra de
arte. Eu sempre me interessei por arte. Minha vida sempre foi regida por
arte. O sentido de sagrado da obra de arte sempre esteve em mim,
intuitivamente. Eu passava por um cinema abandonado e brincava com os
amigos: "vamos comprar esse cinema e fazer uma igreja... onde o culto seja
com filmes".
LISARDO:
Uma boa idéia.
MÁRCIO-ANDRÉ: Desde essa época eu sentia arte como algo mais que um
enfeite do mundo. De alguma maneira, através da obra de arte, eu me sentia
mais próximo de Deus. Eu sempre gostei muito de cinema. Foi meu primeiro
contato com algo artístico. Eu queria ser um diretor famoso etc. Fazer
filmes em Hollywood, vê se pode! Com o tempo fui aprendendo que o sagrado
estava também na poesia e depois na música.
Só que as pessoas vêem Deus e o sagrado onde não devem e deixam a arte ser
relegada à um mero luxo de uma elite cultural. Não precisamos de mais
igrejas. O sofrimento que faz as pessoas correrem para a Universal não
existiria se nos déssemos conta que a arte não está distante da realidade,
nem se restringe a museus ou à artistas afetados.
LISARDO: A
arte é o contato com o "sagrado"?
MÁRCIO-ANDRÉ: A arte é o lugar, hoje, de manifestação do sagrado.
LISARDO:
E se manifesta de uma maneira muito menos ideológica de que na Igreja por
exemplo?(essa pergunta é um tanto baseada na entrevista do seu site).
MÁRCIO-ANDRÉ: Sim. Na igreja não há mais o sagrado, mas a tecnização do
sagrado. Gosto de dar um exemplo disso com o candomblé. Ali se tem todas
as imagens ancestrais do sagrado, que é a manifestação do mito através do
rito. Se tem os deuses, as oferendas, as danças etc. Só que não há mais o
sentido ancestral, o sentido poético, ou seja, não há mais o homem
reverenciando os deuses pelo próprio sentido do rito. As pessoas só se
concentram na técnica. Se querem pedir algo, já têm uma formula para isso,
já tem uma regra. O rito perdeu o mito e entrou no esquema causal, que só
nos deixa fazer algo quando temos um retorno. Da mesma forma, as religiões
são mais auto-ajuda do que religação com o sagrado. Não quero criticar a
crença de ninguém, só acho que Deus realmente não está num templo, mas no
sentido daquilo que fazemos sem esperar algo em troca ou um retorno, como
um poema ou um quadro, por exemplo.

LISARDO:
Mudando de assunto, fale um pouco da sua relação com a música e do projeto
Arranjos para Assobio. O arranjos é uma mescla desses dois ambientes? Como
isso chega para o estudante, de Letras por exemplo?
MÁRCIO-ANDRÉ:
O Arranjos foi um projeto pensado por mim e pelo meu amigo Victor Paes em
2004, acho. Nós tínhamos uma grande vontade de trazer a poesia ao seu
lugar primordial que é o da voz. Nunca escrevi um poema que não devesse
ser lido em voz alta, então o arranjos vêm se juntar à minha proposta
poética, como um alargamento ou prolongamento. Na verdade um laboratório
que foi guiando um pouco o rumo dos meus livros. O Victor vinha com seu
conhecimento de teatro. A idéia era seguir a linha de poesia sonora de
Bernard Heidsieck, Laurie Andreson, Henry Chopin e Serge Pey, e, ao mesmo
tempo, remeter ao trovador medieval, ao teatro grego, ao repentista e ao
Teatro No, que são essencialmente poesia no seu sentido mais amplo. Não
vemos como uma mescla de artes, nem de linguagens. A linguagem é só uma
que é a própria arte. Na verdade não vemos separação entre elas. A música
já está na poesia, no teatro, na dança. Para mim, musica é algo
extremamente plástico. Assim queríamos um projeto experimental (isso só
poderia ser experimental) que trabalhasse justamente no interstício, na
pororoca dessas formas materiais com que a arte se manifesta. Com isso
tentamos fazer algo que não seja poesia falada ou com musica de fundo, nem
musicada. Queríamos algo que fosse palavra dialogando com corpos e com
instrumentos. Não sei se conseguimos, mas estamos tentando. Para isso
recorremos à musica contemporânea, à musica brasileira, ao teatro, à
projeções, a instrumentos bizarros como bicicletas, chevetes gosmentos e
outras porcarias que achamos ser sonoras. Quanto a questão da Letras: acho que a faculdade
de letras
poderia ser mais voltada para esse sentido artístico. Eu tenho consciência
que a maioria que faz Letras é de baixa renda, tem dificuldades e muitas
vezes escolhe essa área por necessidade de trabalho. Acaba que a Letras
vira uma escola de professores. Não vejo mal nisso, eu mesmo sou
professor. Mas a tradição belletrista da qual a letras vêm nos afasta de
uma relação maior com a arte. Numa faculdade de Belas Artes, por exemplo,
esse "engajamento" artístico é maior. O aluno de letras poderia ser mais
poeta, poderia ser mais artista, mais cineasta, mais teatral, mais
filósofo. Não falo de fazer, falo de conhecer e saber e ver e estar em
contato. Até nisso seriam melhores professores. Seus alunos se formariam
mais conscientes. Teríamos novas gerações de poetas e artistas
LISARDO:
Você acha que as oficinas possuem um papel importante para suprir essa
carência?
MÁRCIO-ANDRÉ: Oficinas são boas soluções mas ainda é pouco. Os professores
que lecionam em universidades são burocratas e só sabem formar burocratas.
Precisamos de professores que saiam desse ciclo vicioso que os acompanha
desde sua formação lá no Jardim I. Precisamos de professores que, fora
desse esquema clássico acadêmico do conhecimento é poder, saiba dar aos
seus alunos o sentido de que conhecimento é libertar-se. Precisamos é
mudar o quadro acadêmico, não criar alternativas a incompetência deles. E
somos nós, eu você e os leitores que precisamos fazer isso.
LISARDO: Qual
conselho você teria a dar para o estudante de Letras?
MÁRCIO-ANDRÉ: Acho que
deveríamos nos abrir mais para a arte que não está sendo feita. Ou seja,
perceber aquilo que não é nos ofertado a perceber, a arte que não está na
Globo, nem no Prosa e verso. Pois nem toda arte tem pistolão e é feita
para ser apreendida racionalmente. Por tanto acho que temos que estar
aberto àquilo que nos liberta da única maneira que nos é ofertado pensar.
Não precisamos encontrar um sentido lógico-ideológico num filme do David Linch. Dessa maneira podemos perceber a realidade em suas múltiplas formas
de se manifestar. Dessa maneira somos levados a ver que arte não está
distante da realidade e que todos os problemas sociais e econômicos;
miséria, violência, etc, de certa maneira são originadas pela maneira
tendenciosa que fomos obrigados a perceber o mundo desde que nascemos. Se
somos obrigados a ver o mundo como matéria prima e a vida como uma
corrida, pouco nos sobra tempo para tentar ver o outro. Não esqueçamos que
o menino do tráfico só pega em armas porque ele pensa como a mesma classe
média que o exclui. Ele vê os mesmo filmes, os mesmos comerciais, e sente
os mesmo desejos de consumo. Só que a ele não foi dado o direito de
fazê-lo, como o faz o playboy do asfalto. Se nos questionamos pelo sentido
do que é consumir, produzir, ser feliz, vamos ver que não precisamos de ipods, nikes, carros importados, etc. Mas estamos pouco dispostos a
renunciar a qualquer coisa que conseguimos num mundo onde você está em
eterna lutar para conseguir sobreviver.

LISARDO: Para finalizar
deixa uma lista de poetas fundamentais na sua opinião.
MÁRCIO-ANDRÉ: Serge Pey, E.E. Cummings, Artaud. Ezra Pound, Allen Ginsberg,
Gerardo Mello Mourão, Li Po, Guennady Aigui, Haroldo de Campos,
Sousândrade. É só os que consigo lembrar agora. Ah, o sociólogo Boaventura
de Sousa Santos que também é poeta - e um poeta genial. Outros que não
podem ser esquecidos são Ariosto, Dante, Ovídio e Kavafis, mas este são
clássicos, então não falei.
LISARDO: Muito obrigado pela entrevista, acho que ela nos abriu muito
horizontes, espero que surta efeitos em muitos leitores.
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